Existem dezenas, centenas, milhares de patologias e problemas que podem afligir o corpo humano.
Vírus insidiosos que esperam em qualquer esconderijo o momento de entrar no teu organismo. Bactérias oportunistas que não fazem nada até estares com as defesas baixas e aproveitam a ocasião. Mutações devidas a diferentes fatores, que causam problemas no funcionamento celular. Embora improvável, até ser atacado por uma vaca é uma possibilidade.
No entanto, apesar desta imensa lista, existe uma categoria que é pior do que todas as anteriores: as doenças autoimunes.
Ser atacado por aqueles que juraram proteger-te.
O que são as doenças autoimunes e que fatores têm?
Uma doença autoimune é uma patologia ocasionada pela resposta indevida do sistema imunitário da pessoa.
A causa principal é que o sistema imunitário confunde um componente normal do organismo com algo estranho e tenta eliminá-lo. Um exemplo seria a tiroidite de Hashimoto, onde o sistema imunitário reage contra a glândula tiroide.
Facto curioso: esta patologia causa hipotiroidismo ao danificar a glândula tiroide. Mas existe outra doença autoimune, a doença de Graves, que causa precisamente o contrário: hipertiroidismo. Os anticorpos que o sistema imunitário gera ligam-se a uns recetores da glândula e estimulam uma produção excessiva de hormonas.
Nem sempre é tão simples e direto. Na doença celíaca, considerada também uma patologia autoimune, a reação é contra o glúten. É o glúten o composto detetado como desconhecido. Mas o sistema imunitário inicia uma resposta onde as células intestinais são também agredidas.
Calcula-se que existam aproximadamente 80 doenças autoimunes conhecidas e outras 100 que ainda não foram descobertas.
Praticamente qualquer parte do corpo humano é suscetível de sofrer um ataque imunitário.
Existe tanto respeito por isto que até alguns órgãos têm o privilégio imunitário para evitá-lo. O privilégio imunitário é uma condição que ocorre em algumas regiões do organismo, como os olhos ou o cérebro, onde a atividade do sistema imunitário está limitada ou onde este é mesmo impedido de aceder.
Estas zonas são vitais e uma atividade anómala do sistema imunitário poderia levar à morte. Entre elas encontram-se os olhos, o cérebro ou os testículos.
Sem testículos não vais morrer, mas a evolução dá muita importância a que tenhas descendência.
A sua prevalência na sociedade atual é bastante elevada e continua a aumentar, principalmente em países industrializados. Teoriza-se que as causas responsáveis por isto sejam:
- Aumento no uso de fármacos, destacando-se os antibióticos.
- Seguindo essa linha, a baixa exposição a microrganismos durante a infância, que colaboram na maturação do sistema imunitário.
- A dieta, com um alto consumo de alimentos ultraprocessados.
- Elevados níveis de stress.
- Diagnósticos mais precisos. Em países menos avançados, muitas doenças autoimunes podem passar despercebidas ou ser confundidas com outras patologias.
Um estudo no Reino Unido concluiu que 10% da população estava afetada por alguma doença autoimune. Têm uma maior prevalência em mulheres.
Para citar alguns exemplos, a artrite reumatoide tem uma incidência de 1% em todo o mundo (até já falámos da artrite reumatoide no blogue), e a esclerose múltipla afeta aproximadamente 2,5 milhões de pessoas em todo o mundo (a leitura sobre a esclerose múltipla no blogue é também recomendada).
As doenças autoimunes são genéticas?
E, portanto, as doenças autoimunes são hereditárias? O seu aparecimento costuma dever-se a uma predisposição genética para sofrer a patologia e a uma série de fatores ambientais que a desencadeiam. A imensa maioria são doenças poligénicas e complexas.
Todas as doenças autoimunes que mencionámos até agora têm uma causa genética.
O que, seguindo a ideia principal, indica que patologias como a artrite reumatoide ou a celiaquia são também hereditárias.
Descobrir que existe uma predisposição genética nas doenças autoimunes não foi algo que exigisse uma investigação profunda. Quando numa família começaram a surgir casos de esclerose múltipla como cogumelos depois da chuva, os médicos suspeitaram que algo se passava.
As doenças autoimunes são hereditárias, entendendo que a predisposição para a patologia vai ser herdada. Não quer dizer que, obrigatoriamente, os teus filhos as venham a desenvolver se algum dos pais a tiver.
Certos genes, e os seus alelos, aumentavam a probabilidade de desenvolver essas patologias.
Para a hereditariedade, um tipo de estudo fundamental são os baseados em gémeos. Voltando à esclerose múltipla, em gémeos idênticos, 35% das vezes que um deles desenvolvia a doença, o outro também desenvolvia.
No entanto, em gémeos falsos (fraternos), que não são geneticamente iguais, isso só acontecia em 6% dos casos.
Como curiosidade, as pessoas que possuem uma predisposição genética para patologias imunitárias parecem ter uma maior resistência a infeções, e vice-versa.
Os genes das patologias autoimunes
Existem vários genes que demonstraram ter relação com um maior risco de sofrer uma doença autoimune. São os fatores genéticos das doenças autoimunes:
- Os genes do Complexo Maior de Histocompatibilidade (MHC). Envolve uma região do cromossoma 6, no seu braço curto, codificando mais de 200 genes. É a área do genoma humano com maior variabilidade e a responsável por permitir às células distinguir o que é próprio do que é estranho. A sua associação com as doenças autoimunes remonta a 1967, quando foi relacionado com o linfoma de Hodgkin. No seu conjunto, é considerado o principal risco genético de doenças autoimunes no genoma humano.
- O gene PTPN22. Este gene foi vinculado às doenças autoimunes recentemente. Depois do próprio MHC, é considerado um dos genes com maior relevância no aparecimento de doenças autoimunes. Por exemplo, uma das suas formas, o SNP rs2476601, é, a seguir ao MHC, o gene que causa maior suscetibilidade à artritis reumatoide. A sua atividade principal é ser um regulador negativo do recetor de linfócitos T (TCR). Este recetor é indispensável no reconhecimento dos antigénios por parte da célula, e o gene PTPN22 é capaz de limitar a sua atividade. Também regula a inflamação e promove a produção de interferão (mecanismo antivírico). Resumindo, participa tanto na resposta imunitária adaptativa como na inata. Em tudo.
- O gene IRF5. Codifica informação para a produção de interferão e para a resposta antiviral. Mas na última década viu-se que a sua influência sobre os processos inflamatórios é maior do que o esperado, ao induzir outras moléculas pró-inflamatórias. Comprovou-se que algumas formas desse gene aumentam o risco de sofrer de lúpus eritematoso sistémico, e estuda-se a sua influência noutras patologias semelhantes.
- O gene STAT4. É um gene da família STAT (o nome dava a pista) que regula a expressão génica e sobre o qual atuam múltiplas moléculas celulares. É um mediador básico da inflamação. Foi encontrado a participar na artrite reumatoide, diabetes tipo 1 e até na psoríase.
Testes genéticos para doenças autoimunes: podem detetar a predisposição?
Embora não seja o único fator, existe uma predisposição genética forte para as doenças autoimunes.
Todas as doenças autoimunes têm uma causa genética envolvida, independentemente dos fatores ambientais que tenham participado no seu desencadeamento.
Isto permite que os testes genéticos possam prever o risco de sofrer uma doença autoimune, dentro das conhecidas. Aproximar a sua predisposição.
Queremos realçar novamente que são patologias multifatoriais. Faz-se a análise da predisposição em função da parte genética, mas é impossível controlar todos os fatores ambientais que estão a interagir com a pessoa.
Pelo menos na parte que podemos analisar melhor, o genoma, foi feito um trabalho excelente. Existem mapeamentos e estudos tanto da genética como da epigenética para descobrir as variantes que existem nas doenças autoimunes.
Graças a isso, sabemos detalhes como o facto de a maioria destas variantes patogénicas se encontrar em regiões não codificantes (não contêm informação para proteínas). Ou que muitas delas se localizam em regiões-chave para a diferenciação e maturação das células do sistema imunitario, incluindo a sua ativação perante estímulos.
Infelizmente, existem muitas doenças autoimunes raras das quais mal temos informação devido aos poucos casos registados.
Isto para não falar de todas as patologias que nem sequer descobrimos ainda. Ou das novas que podem surgir.
Esses são os casos excecionais.
Para conhecer essa predisposição nos casos frequentes, e mais prováveis de terem sido herdados, o teste de ADN da tellmeGen é perfeito.
