Há algo pior do que ter diarreia e dor abdominal durante um evento social? Infelizmente, existem muitas opções piores, e uma delas é que isso se deva a una resposta autoimune. Se isto ocorrer, podemos estar perante uma Doença Inflamatória Intestinal ou DII.
As DII consistem em inflamações crónicas do intestino devido ao facto de o próprio sistema imunitário atuar de forma anómala e agressiva, causando danos nas células e nos tecidos. No entanto, esta situação não se deve geralmente a um ataque contra o próprio organismo, apesar de serem chamadas doenças autoimunes, mas sim a uma ativação contra antígenos bacterianos.
São doenças genéticas complexas, com uma forte componente ambiental e relacionadas com a microbiota intestinal, que nos últimos anos têm vindo a aumentar de frequência. Quão complexas? Tão complexas que foram identificadas 200 regiões do ADN relacionadas com as DII, englobando mais de 300 genes que são potenciais candidatos. Ao mesmo tempo, com tantos intervenientes a participar na mesma obra, cada um dos genes individualmente costuma ter uma baixa influência na doença.
São crónicas, pelo que, embora os sintomas possam ser tratados e os afetados possam levar uma vida normal, estas doenças não têm cura. Acompanham-no para sempre. Etapas de tranquilidade podem ser seguidas por etapas com uma forte recaída. Atualmente, o International Inflammatory Bowel Disease Genetics Consortium (IIBDGC) dispõe de dados com a sequenciação do genoma de mais de 75.000 pacientes com a doença, com o objetivo de estudar as interações entre os fatores de risco genéticos e não genéticos e a sua ligação ao desenvolvimento das doenças.
As duas DII mais conhecidas são a colite ulcerosa e a doença de Crohn, embora não sejam as únicas. Entre as duas, em 2019, houve 4,9 milhões de casos em todo o mundo. No entanto, existem muitos outros subtipos, por vezes indistinguíveis no seu fenótipo, mas com diferentes riscos genéticos e respostas ao tratamento. No mundo desenvolvido são mais frequentes, devido à dieta, ao estilo de vida e a uma menor exposição a infeções intestinais nestas regiões do mundo. Literalmente, problemas do primeiro mundo.
Genética e colite ulcerosa, poderia ser pior
A colite ulcerosa afeta o cólon e o reto, com dor abdominal e diarreia acompanhada de sangue como sintomas básicos. A zona danificada original costuma surgir no reto e, a partir daí, expandir-se pelo cólon. Esta região inflamada ocorre apenas ao nível do revestimento interno do intestino grosso, sem atingir as camadas profundas do tecido.
É uma doença descrita já desde 1850. O teste para a colite é realizado através de uma endoscopia com biópsia de tecidos.
Entre os tratamentos, recomendam-se mudanças na dieta (como a eliminação da lactose) e o uso de vários fármacos. Nos casos graves e sem melhoria com os procedimentos anteriores, pode ser necessária a remoção cirúrgica do cólon, uma solução definitiva com um elevado sucesso. Se a doença ocorre num órgão e este é removido, faz sentido que a doença desapareça com ele.
Genética e doença de Crohn, é pior
A doença de Crohn é mais ambiciosa e pode afetar qualquer região do trato gastrointestinal, desde a boca ao reto — sim, inclusive a boca — embora pareça ter predileção pela zona do íleo terminal. Ao contrário da colite, a zona danificada não é contínua, mas surgem manchas de tecido afetado rodeadas de tecido saudável. Além disso, todas as camadas da parede intestinal podem estar inflamadas e existe um maior risco de deformar a estrutura.
Os seus sintomas têm uma maior variedade. À diarreia e à dor abdominal somam-se a febre, distensão abdominal e perda de peso. Também é mais habitual a presença de sintomatologia externa ao aparelho digestivo, como anemia ou erupções na pele, em comparação com as colites, onde ocorrem em menor proporção. O teste para a doença de Crohn volta a ser uma endoscopia intestinal, que permite descartar outras doenças com sintomatologia semelhante.
Os tratamentos incluem o uso de fármacos, o abandono do vício do tabaco nos fumadores e, por vezes, o uso de cirurgia para eliminar abcessos e tumores. No entanto, por não estar localizado num tecido específico, não é uma solução permanente.
Foi precisamente na doença de Crohn que se descobriu o primeiro gene relacionado com as DII, o gene NOD2. Na tellmeGen, este é um dos genes que estudamos para verificar a predisposição. Foi relacionado com a genética das DII no seu conjunto, incluindo a genética da colite ulcerosa.
As doenças inflamatórias intestinais que não são populares
Por vezes, considera-se um terceiro tipo de DII, a colite indeterminada, para aqueles casos que partilham traços com as duas anteriores ou que apresentam outros distintos, não podendo ser classificados em nenhuma delas. Quando na ciência não se sabe onde guardar algo, cria-se a caixa do “Não sei” e coloca-se lá.
Finalmente, temos a colite microscópica, típica em pessoas idosas. Neste caso, não há sangue nas fezes (embora haja diarreia) e, numa exploração visual, o tecido não mostra inflamação, embora possa ser detetada através de biópsias. Tal como as anteriores, é crónica, embora tenha um prognóstico positivo. Não o vai matar.
Temos de dois tipos. Colite linfocítica, caraterizada pelo elevado número de linfócitos no tecido, e colite colagénica, que apresenta uma espessa banda de colagénio por baixo do epitélio da mucosa (e também um maior aumento de linfócitos).
Um problema adicional às DII é que a presença constante de um estado inflamatório constitui um elevado risco para o aparecimento de cancro colorretal, principalmente na colite ulcerosa. Em contrapartida, a doença de Crohn aumenta o risco de cancro nas zonas inflamadas ao longo do trato gastrointestinal.
Para diagnosticar o cancro do cólon, o método mais seguro é a confiável colonoscopia e biópsia de tecidos. Após 8-10 anos de sofrer da doença, recomenda-se a realização de colonoscopias a cada 1-2 anos, e biópsias de qualquer displasia que seja encontrada no processo. Outras técnicas ajudam, como a procura de biomarcadores no sangue ou estudos de genética do cancro do cólon.
Os serviços genéticos são uma grande ajuda se quiser aprofundar a sua predisposição para estas e outras doenças. Na tellmeGen, a análise genética Advanced é uma opção que tem à sua disposição.
